Toda vez que um pai ou uma mãe me pergunta, em consultório, se deve amar o filho “de qualquer jeito” ou deixar claro que esse amor tem expectativas, a pergunta esconde outra coisa.
Os dois discursos que se repetem
Existem dois modos de presença parental que aparecem, com pequenas variações, na maioria das sessões em que esse tema surge. O primeiro promete presença incondicional: “não importa o que você faça, eu estarei aqui”. É o discurso da aceitação prévia — um contrato de amor que não se altera diante do resultado.
O segundo condiciona essa presença a uma direção: “é porque te amo que não aceito que você se torne qualquer coisa”. Aqui, o amor se apresenta como vigilância — uma bússola que orienta, e que ameaça se retrair quando a orientação não é seguida.
Os dois soam como filosofias opostas de criação. Um pai que escuta os dois descritos lado a lado tende a escolher um time: “eu sou mais do primeiro tipo” ou “eu acredito no segundo”. Essa escolha, no entanto, já é o primeiro erro — porque os dois discursos, examinados de perto, não são filosofias diferentes. São a mesma coisa, com roupagens diferentes.
A angústia por trás dos dois modelos
Nenhum dos dois modelos é, na origem, sobre a criança. Os dois são tentativas — diferentes, mas igualmente desesperadas — de administrar a mesma angústia: a de que o filho, um dia, se torne alguém que não se escolheu, não se reconhece, talvez nem se aprove.
Um modelo neutraliza esse medo prometendo aceitação prévia de qualquer resultado — se tudo já está aceito de antemão, não há susto possível. O outro neutraliza o mesmo medo impondo uma direção ao resultado antes que ele aconteça — se o caminho está definido com antecedência, também não há susto possível, porque supostamente não haverá desvio.
Em ambos os casos, o alvo real da estratégia não é o filho. É a tolerância do próprio pai ou mãe à incerteza sobre quem essa pessoa, ainda em formação, vai se tornar.
O erro está na pergunta, não na resposta
Perguntar qual dos dois modelos aplicar já parte de um erro de categoria: trata como técnica de criação algo que é, na verdade, luto antecipado — o luto de não poder escolher, com precisão e garantia, quem o próprio filho vai ser.
É um luto incômodo porque não tem cerimônia, não tem data, e sobretudo não tem fim. Ele se renova a cada fase da vida da criança, depois do adolescente, depois do adulto que ela se torna — cada etapa reabre, de algum jeito, a mesma pergunta: será que essa pessoa, na sua forma atual, ainda é compatível com quem eu esperava?
O que resta, quando nenhum modelo resolve
Não existe modelo que resolva isso — nem o da presença incondicional, nem o da presença condicionada. Existe apenas a disposição de permanecer ao lado de alguém cujo destino você não controla, cuja identidade, mais cedo ou mais tarde, vai escapar de qualquer roteiro que você tenha imaginado para ela.
Essa disposição não é passividade. É, provavelmente, a forma mais exigente de amor que existe — porque não vem com a garantia de que o resultado vai justificar o investimento. Vem sem script, sem previsão, sem a segurança de nenhum dos dois discursos que abrem este texto.
A pergunta que fica não é qual presença oferecer. É se você consegue amar alguém antes de saber quem essa pessoa vai se tornar.
