Rolamos o feed achando que fugimos do tédio. Na verdade, fugimos de uma pergunta.
É tentador explicar o vício em redes sociais como um problema de estímulo: o cérebro busca dopamina, o design captura atenção, o algoritmo aprende nossos pontos fracos. Essa explicação não está errada — mas é rasa. Ela trata o sintoma como se fosse a doença. E deixa de fora a pergunta mais incômoda: por que a satisfação que o feed oferece nunca é suficiente, mesmo quando funciona perfeitamente bem?
A psicanálise oferece uma distinção que ajuda a entender esse impasse: a diferença entre necessidade, demanda e desejo. A necessidade é biológica — fome, sede, sono — e pode ser plenamente satisfeita. A demanda é o pedido que fazemos ao Outro, e carrega sempre algo a mais do que a necessidade: quando uma criança chora por comida, ela não pede apenas alimento, pede também presença, atenção, prova de amor. E o desejo — este é o ponto crucial — nasce exatamente do resto que nenhuma satisfação de demanda consegue cobrir. O desejo não tem objeto final. Ele se desloca, se reinventa, escapa de qualquer coisa que tentamos usar para fechá-lo.
O feed opera inteiramente no nível da demanda. Cada rolagem é uma demanda articulada — um clique, uma curtida, um segundo a mais de atenção em determinado conteúdo — e o algoritmo responde a ela com precisão cirúrgica. Nisso ele é extraordinariamente competente: raramente uma demanda fica sem resposta por muito tempo. O problema é que essa competência opera no nível errado. Por mais preciso que seja o algoritmo em satisfazer demandas, ele não tem acesso — porque nenhum sistema tem — ao desejo que sustenta essas demandas. E é exatamente esse descompasso que produz a sensação, tão comum e tão pouco nomeada, de ter passado uma hora rolando o feed e terminar mais vazio do que começou.
Aqui está o que costuma escapar nas críticas mais populares ao algoritmo: não é que ele nos prenda em uma bolha de opiniões, embora isso também aconteça. É que ele nos oferece, repetidamente, satisfação suficiente para adiar — nunca para responder — a pergunta que sustenta o desejo: o que eu realmente quero?
Essa pergunta é desconfortável por um motivo preciso. Sustentá-la exige tolerar, por um tempo, não saber a resposta. Exige atravessar um vazio sem preenchê-lo imediatamente. E é justamente esse vazio que o feed torna desnecessário atravessar. Cada notificação, cada scroll, cada pequena dose de validação ou indignação opera como uma anestesia pontual — não porque o conteúdo seja hipnotizante em si, mas porque ele evita, com sucesso quase perfeito, que a pergunta mais incômoda chegue a se formular.
Não é o algoritmo que nos aprisiona no próprio ego, como sugerem tantas críticas contemporâneas às redes sociais. É o alívio de nunca precisar sustentar uma falta. E esse alívio tem um preço: ele impede que o desejo — que só se sustenta a partir de uma falta reconhecida — encontre espaço para se formular com alguma clareza.
Vale notar que essa dinâmica não é exclusividade do digital. Antes do algoritmo, já existiam formas culturais de evitar essa pergunta — o consumo, o trabalho excessivo, a distração ritualizada. O que muda com o feed não é a lógica, mas a velocidade e a precisão: nunca antes tivemos um mecanismo tão eficiente em identificar exatamente qual demanda satisfazer a cada instante, tornando o adiamento do desejo quase automático, quase invisível.
Talvez a pergunta mais produtiva, então, não seja o que o algoritmo tira de nós. É o que ele nos permite, com tanta eficiência, nunca perguntar.
